A seleção da curva de deslocamento é uma das decisões que mais influenciam o comportamento dinâmico de um came. Duas leis podem produzir subidas praticamente iguais no diagrama de deslocamento e, ainda assim, impor ao mecanismo velocidades máximas, acelerações, níveis de jerk e forças muito diferentes. Este artigo compara somente as leis de movimento disponíveis atualmente no CamForge, utilizando os critérios apresentados por Jensen, Rothbart e Norton.

Diagrama de deslocamento de came com trechos de subida, parada e retorno
O diagrama de deslocamento prescreve o movimento do seguidor, mas as derivadas da lei escolhida determinam grande parte do desempenho dinâmico do came.

Por que a comparação precisa de tabela e interpretação técnica

A tabela é útil para a triagem inicial porque coloca lado a lado os principais fatores normalizados. Ela não é suficiente para a escolha final. Como destaca Norton, as curvas de deslocamento tornam-se visualmente muito semelhantes depois das integrações que as produzem; as diferenças decisivas aparecem com maior clareza nos diagramas de aceleração e jerk e nas junções entre segmentos. Rothbart também distingue as curvas básicas, adequadas a uma escolha inicial em baixa ou média velocidade, das leis modificadas, combinadas e polinomiais destinadas a melhorar o comportamento dinâmico.

Para uma subida de altura (h) durante um ângulo de came β, os fatores normalizados máximos escalam as derivadas aproximadamente como

\[v_{max}=C_v\frac{h}{\beta},\qquad a_{max}=C_a\frac{h}{\beta^2},\qquad j_{max}=C_j\frac{h}{\beta^3}.\]

A comparação seguinte considera β em radianos. Fatores menores podem ser vantajosos, mas precisam ser avaliados juntamente com a continuidade. Uma aceleração teoricamente baixa não representa benefício se a lei introduzir um salto brusco ao encontrar uma parada ou excitar a estrutura por um padrão desfavorável de jerk.

Comparação direta das principais leis entre paradas

Lei no CamForge(C_v)(C_a)(C_j)Interpretação de projeto
Parabólica (PAR)2,0004,000Infinito nos saltos de aceleraçãoBaixa aceleração nominal, porém inadequada para serviço exigente em alta velocidade sem transições.
Harmônica simples (H5/H6)1,5714,935Infinito junto a uma paradaMenor velocidade máxima do grupo; a aceleração não nula nas extremidades dificulta a união direta com uma parada.
Trapezoidal modificada (MT)2,0004,88861,4Menor aceleração nominal finita da tabela, embora o jerk relativamente irregular possa ampliar a vibração.
Aceleração trapezoidal (TA)2,0005,33342,7Picos moderados, mas em geral superada pelas leis modificadas mais suaves.
Senoidal modificada (MS)1,7605,52869,5Baixo fator de velocidade; útil quando o ângulo de pressão ou o tamanho do came é restrito.
Polinomial 3-4-5 (P45)1,8755,77460,0Solução equilibrada de uso geral, com velocidade e aceleração nulas nas extremidades.
Cicloidal (C5/C6)2,0006,28339,5Aceleração contínua e baixo fator de jerk; escolha forte para alta velocidade e baixa vibração.
Polinomial 4-5-6-7 (P67)2,1887,51352,5Jerk contínuo nas fronteiras, com velocidade e aceleração nominais mais altas.

Os valores calculados pelas equações do CamForge são muito próximos dos apresentados nas tabelas clássicas; pequenas diferenças decorrem do arredondamento dos coeficientes e da avaliação numérica. A principal conclusão não é uma classificação da menor para a maior aceleração. A lei parabólica, por exemplo, possui (C_a) baixo, mas as mudanças abruptas de aceleração tornam o jerk teoricamente infinito. Em sentido oposto, as leis cicloidal e 4-5-6-7 aceitam aceleração nominal maior em troca de continuidade substancialmente melhor.

Todas as famílias de curvas disponíveis no CamForge

O CamForge possui variantes direcionais e meias-curvas que não podem ser todas avaliadas como subidas completas entre paradas. A tabela a seguir agrupa, portanto, as 65 opções selecionáveis nos 40 modelos de leis de movimento implementados pelo programa e identifica a função de projeto de cada família.

Família e códigosPrincipal vantagemPrincipal limitaçãoUso recomendado
Parada (W/DW)Mantém constante a posição do seguidor.Exige derivadas nulas e compatíveis nos segmentos vizinhos.Intervalos estacionários do processo.
Velocidade constante (VC)Baixo fator de velocidade e trecho direto de movimento uniforme.Não pode se ligar diretamente a uma parada; necessita transições de entrada e saída.Trechos longos de movimento uniforme combinados com curvas de transição.
Cicloidais (C1–C6)Aceleração suave, jerk favorável, baixa vibração e desgaste.Aceleração máxima um pouco maior e maior sensibilidade a erros de fabricação.Movimento em alta velocidade e meias-curvas entre repouso e velocidade constante.
Harmônicas (H1–H6)Baixa velocidade máxima, came compacto e menor empuxo lateral.A lei completa tem aceleração não nula nas extremidades quando ligada a uma parada.Segmentos compostos compatíveis e meias-curvas de transição, e não uma lei isolada entre paradas em alta velocidade.
Parabólica (PAR)Formulação simples e baixa aceleração teórica.Saltos de aceleração produzem jerk teoricamente infinito.Aplicações de baixa velocidade ou estudos preliminares.
Harmônica dupla (DH)Assimetria útil em um movimento com uma única parada.Alta aceleração negativa e condições de extremidade inadequadas para ciclos com duas paradas.Sistemas de parada única com intervalos adjacentes compatíveis.
Cúbicas n.º 1, 2 e 3 (CB1–CB3)Construção polinomial simples com diferentes inclinações de fronteira.Algumas variantes mantêm saltos de aceleração ou aceleração não nula nas extremidades.Segmentos de baixa velocidade e combinações específicas de condições de fronteira.
Polinomiais 3-4, 3-4-5 e 4-5-6-7 (P34, P45, P67)Continuidade progressivamente melhor nas extremidades e uso geral flexível.Maior continuidade pode elevar a velocidade ou a aceleração máxima.P45 para projeto equilibrado; P67 quando transições dinâmicas mais suaves têm prioridade.
Transições de oitavo grau (P1/P2)Excelente ligação entre estados prescritos de velocidade e aceleração.Foram desenvolvidas como transições, não como leis universais de subida completa.União de segmentos e correção da compatibilidade do movimento por trechos.
Polinomiais de quinto, nono e décimo primeiro graus (P5, P9, P11S, P11V)Maior controle das condições nas extremidades e no ponto médio.O grau mais alto pode aumentar picos, sensibilidade e complexidade numérica.Condições de fronteira especiais, movimento simétrico ou velocidade prescrita no ponto médio.
Leis trapezoidais e modificadas (TA, MT, MS, MS1/MS2)Redistribuição intencional da aceleração; MT reduz (C_a), enquanto MS reduz (C_v).O melhor pico teórico não fornece necessariamente a menor vibração.MT para restrições de aceleração; MS para velocidade e ângulo de pressão; meias-senoidais para transições.
Cicloidal modificada (MC)Redistribui o movimento cicloidal para atender condições alternativas.A vantagem depende da parametrização e não pode ser presumida somente pelo nome.Solução alternativa após verificar no CamForge os picos reais de SVAJ.
Berzak D e E (BD/BE)Desenvolvidas para reduzir vibração residual em determinadas faixas de operação.O desempenho depende da razão entre a rotação do came e a frequência natural do sistema.Mecanismos flexíveis e rápidos avaliados dinamicamente.
Harmônicas de Gutman, Freudenstein e Weber (G3, F13, F35, WB)Formulações de Fourier permitem controlar o conteúdo harmônico e evitar excitações críticas.A escolha exige conhecimento das frequências naturais do mecanismo.Projeto de baixa vibração e aplicações sensíveis à ressonância.

Critérios práticos de seleção

Para uma subida geral entre paradas, Norton identifica o polinômio 3-4-5 como um compromisso consistente: seus fatores máximos são moderados e a velocidade e a aceleração são nulas nas extremidades. Quando o ângulo de pressão ou o diâmetro do came é a principal restrição, a senoidal modificada torna-se atraente por seu menor fator de velocidade. A trapezoidal modificada oferece baixa aceleração máxima teórica, mas sua assinatura de jerk impede que ela seja interpretada automaticamente como a solução de menor vibração.

Para velocidades mais altas e maior sensibilidade à vibração residual, as leis cicloidal e 4-5-6-7 merecem prioridade, mesmo com fatores nominais de aceleração maiores. Rothbart apresenta a cicloidal como uma forte primeira escolha para muitas exigências de máquinas, pois evita mudanças bruscas de aceleração e tende a reduzir choque, ruído e desgaste. Os processos modernos de fabricação também diminuem parte da dificuldade tradicional de produzir esse perfil com precisão.

Quando o processo exige um trecho de velocidade constante, a VC deve ser tratada como o centro de um movimento composto, e não como uma lei isolada. O CamForge disponibiliza C1–C4, H1–H4, MS1/MS2 e P1/P2 justamente para formar transições compatíveis entre repouso, velocidade constante e outros estados de fronteira. Os modos de filtro automático e de correção de descontinuidades são especialmente valiosos nesse caso.

Por fim, as curvas de Berzak, Gutman, Freudenstein e Weber não devem ser escolhidas somente por uma tabela genérica de fatores. Sua finalidade está associada à vibração residual e à excitação harmônica; por isso, o projeto deve considerar frequências naturais, amortecimento e faixa de rotação do sistema real do seguidor. O CamForge fornece as leis cinemáticas e sua resposta SVAJ; cabe ao engenheiro relacionar essas informações ao modelo dinâmico da máquina.

Conclusão

Não existe uma curva de deslocamento universalmente superior. A melhor lei é aquela cujas condições de extremidade correspondem aos segmentos vizinhos e cujas velocidade, aceleração, jerk, ângulo de pressão, curvatura e excitação dinâmica permanecem compatíveis com a aplicação. A tabela é, portanto, o ponto de partida correto, enquanto a decisão final deve resultar da análise completa de SVAJ e da geometria.

No CamForge, um procedimento prático consiste em definir o movimento exigido, utilizar o filtro de curvas possíveis ou a busca automática, comparar os diagramas SVAJ das alternativas e então verificar descontinuidades, ângulo de pressão e curvatura. Se necessário, a função de correção pode redistribuir β ou ΔL antes da avaliação do perfil final.

Referências técnicas

  1. Jensen, P. W. Cam Design and Manufacture. 1987. Capítulo 2, especialmente a Tabela 2-1, página 19 do livro (página 40 do PDF).
  2. Rothbart, H. A. Cam Design Handbook. 2004. Capítulos 2–4, incluindo a comparação de curvas básicas, modificadas e polinomiais.
  3. Norton, R. L. Cam Design and Manufacturing Handbook. 2009. Capítulos 3, 11 e 18, incluindo os fatores comparativos e a discussão de vibração residual.
  4. Norton, R. L. Design of Machinery. 6. ed., 2020. Capítulo 8, seções sobre funções padrão e modificadas para cames.