Este artigo mostra como montar no Engrenarium um modelo didático de transmissão Ravigneaux e como interpretar suas relações de marcha. A leitura é focada nos dentes do conjunto, nas condições de travamento ou acoplamento e no motivo pelo qual esse arranjo é útil em transmissões automáticas compactas.

Montagem no Engrenarium: o conjunto pode ser reproduzido no Engrenarium software ou no Engrenarium web. Crie os dois subsistemas planetários com a mesma anelar e altere os vínculos para simular cada marcha.

O que é um conjunto Ravigneaux

O conjunto planetário Ravigneaux foi patenteado em 1949 por Pol Ravigneaux. Ele reúne duas engrenagens solares, planetas longos e curtos, uma engrenagem interna e um único porta-planetas, funcionando como se dois sistemas planetários fossem combinados em uma única estrutura.

Esquemas de patente do conjunto planetário Ravigneaux
Esquemas da patente: o arranjo combina duas malhas planetárias em torno de um porta-planetas comum.
Conjunto de engrenagens Ravigneaux com engrenagens helicoidais e anelar
Conjunto Ravigneaux: duas famílias de planetas trabalham com solares diferentes dentro de uma arquitetura compacta.

Aplicação em transmissões Ford

Transmissões automáticas overdrive da Ford usaram conjunto Ravigneaux. O modelo 4R70W apareceu em vários veículos, entre eles:

Ford F-Series usado como exemplo de veículo com transmissão 4R70W
Ford F-Series.
Lincoln Town Car usado como exemplo de veículo com transmissão 4R70W
Lincoln Town Car.
Ford Expedition usado como exemplo de veículo com transmissão 4R70W
Ford Expedition.

Relações de marcha

A transmissão 4R70W pode ser representada por cinco relações: quatro marchas à frente e uma marcha ré.

Condição Relação indicada
1ª marcha \(2,84\)
2ª marcha \(1,55\)
3ª marcha \(1,0\)
4ª marcha \(0,7\)
Marcha ré \(-2,32\)

As relações acima são escritas como razão entre velocidade angular de entrada e velocidade angular de saída. Relações maiores que \(1\) indicam redução; a relação \(1,0\) indica marcha direta; e a relação \(0,7\) indica overdrive, em que a saída gira mais rápido que a entrada. O sinal negativo da ré indica inversão de sentido.

Dados para montagem no Engrenarium

A descrição do vídeo informa os números de dentes usados para montar o modelo. O ponto importante é que os dois subsistemas compartilham a mesma anelar de \(88\) dentes, característica que ajuda a compactar o conjunto Ravigneaux.

Subsistema Solar Planetas Anelar
Planetária 1 \(N_{sun}=31\) \(N_{planet\,1}=24\), \(N_{planet\,2}=25\) \(N_{ring}=88\)
Planetária 2 \(N_{sun}=38\) \(N_{planet}=25\) \(N_{ring}=88\)

No Engrenarium, esses dados devem ser usados para criar os dois trens combinados. Depois disso, mantenha o porta-planetas comum e a anelar de saída, mudando apenas as condições de contorno de cada marcha.

Corte de patente do conjunto Ravigneaux com solares, planetas, anelar e porta-planetas
Corte do conjunto: o mesmo pacote mecânico pode gerar várias relações ao mudar quais elementos são travados ou usados como entrada e saída.

Montagem das marchas

Com a geometria definida, cada marcha é obtida por uma configuração de vínculos. A análise abaixo usa a mesma saída na anelar e alterna entrada, travamentos e acoplamentos para reproduzir redução, marcha direta, overdrive e ré.

1ª marcha

Na primeira marcha, configure a entrada na primeira solar e a saída na segunda anelar:

\[ i_1 = \frac{\omega_{in}}{\omega_{out}} = \frac{\omega_{sun\,1}}{\omega_{ring\,2}} = 2,84 \]

A condição de contorno é o travamento do primeiro porta-planetas:

\[ \omega_{carrier\,1}=0 \]

Com o porta-planetas parado, o conjunto trabalha como uma redução forte. Essa é a condição adequada para arrancada, quando se deseja maior multiplicação de torque e menor velocidade de saída.

2ª marcha

Na segunda marcha, a relação ainda é lida entre a primeira solar e a segunda anelar:

\[ i_2 = \frac{\omega_{in}}{\omega_{out}} = \frac{\omega_{sun\,1}}{\omega_{ring\,2}} = 1,55 \]

A condição que muda é o travamento da segunda solar:

\[ \omega_{sun\,2}=0 \]

Essa alteração reduz a relação em comparação com a primeira marcha. A saída passa a girar mais rapidamente para a mesma velocidade de entrada, mas ainda com redução.

3ª marcha

A terceira marcha é a marcha direta. A mesma razão cinemática é usada, mas agora com acoplamento entre as duas solares:

\[ i_3 = \frac{\omega_{in}}{\omega_{out}} = \frac{\omega_{sun\,1}}{\omega_{ring\,2}} = 1,0 \] \[ \omega_{sun\,1}=\omega_{sun\,2} \]

Quando os elementos relevantes giram solidários, o trem deixa de produzir redução interna e a relação efetiva se aproxima de \(1:1\).

4ª marcha

Na quarta marcha, a entrada considerada passa pelo porta-planetas e a saída continua na anelar:

\[ i_4 = \frac{\omega_{in}}{\omega_{out}} = \frac{\omega_{carrier\,1}}{\omega_{ring\,2}} = 0,7 \]

A condição aplicada novamente é o travamento da segunda solar:

\[ \omega_{sun\,2}=0 \]

Como \(i_4 < 1\), esta é uma relação overdrive. A saída gira mais rápido que a entrada, condição útil para reduzir rotação do motor em velocidade de cruzeiro.

Marcha ré

Na marcha ré, a relação é escrita entre a segunda solar e a segunda anelar:

\[ i_R = \frac{\omega_{in}}{\omega_{out}} = \frac{\omega_{sun\,2}}{\omega_{ring\,2}} = -2,32 \]

Para inverter o sentido da saída, mantém-se o travamento do primeiro porta-planetas:

\[ \omega_{carrier\,1}=0 \]

O sinal negativo indica inversão de sentido. Assim, a ré não é apenas uma relação de grande redução; ela é uma condição cinemática que faz a saída girar no sentido oposto.

Como interpretar o conjunto

O Ravigneaux é eficiente como objeto de estudo porque concentra várias relações em um único pacote de engrenagens. Em cada marcha, a transmissão seleciona quais elementos ficam travados, quais são acoplados e quais servem como entrada ou saída.

O roteiro de leitura é o mesmo usado em outros trens planetários:

  1. identificar a entrada e a saída da marcha;
  2. marcar quais elementos estão fixos, como solares ou porta-planetas;
  3. verificar se há acoplamento entre elementos, como solares solidárias;
  4. calcular a razão \(\omega_{in}/\omega_{out}\);
  5. interpretar o módulo como redução ou overdrive e o sinal como sentido de rotação.

Essa abordagem evita tratar cada marcha como um caso isolado. O que muda de uma marcha para outra é o conjunto de restrições aplicado ao mesmo mecanismo.